21/04/2017

O sangue ao redor


Toda manhã
o mesmo impasse
 como estancar
o sangramento?
Dessa sangria,
nasce teu dia.

Deixa que o sangue
siga seu fluxo,
deixa correr,
é sangue apenas,
e vermelhíssimo.

Deixa que sangre
e vá descendo
pela garganta,
em tua camisa
e na toalha
branca, branquíssima;
deixa que escoe
por entre os dedos,
que abra caminhos,
que ganhe a pia,
também os canos
são boas veias,
veias são canos
de carne ou plástico,
veias contínuas
que levam a mares
de sangue. O sangue,

se tu soubesses
que é por vertê-lo
ao barbear-se,
em finos cortes,
algumas gotas
diariamente,
e só por isso
que sobrevives,
— mas até quando?
até que um dia
já não mais tenhas
como conter
o humano gesto

e com a gilete
que faz a barba
toda manhã
para estar vivo,
você, irmão,
pobre maninho,
venha cortar
os próprios pulsos
num movimento
raro, preciso,
como tivesse
sido ensaiado
— e o ensaiou,
diariamente,
por toda a vida
e muito antes
de ter nascido.

A. F.

* Imagem: cena de O som ao redor 
(2013), de Kleber Mendonça Filho

21/03/2017

Onde os garotos brancos dançam




* Imagem: Kids,
Daido Moriyama

Garotos
de 14 e quinze anos
vagueiam pelas ruas
da cidade iluminada
à procura de
qualquer coisa
leve.

Reparem nesses garotos
de 14 e quinze anos
que não pensam casar e
ter filhos, dois.
Que não aspiram
viver depois dos
30.

Eles não são os primeiros da

classe, nem
os últimos. Seus rostos não
serão lembrados ou
esquecidos  sequer
os fitaram.

Eles não criaram nada, nem
criarão. Não serão médicos,
operários ou funcionários
públicos.
Seus pais estão mortos e 
seus avós são
velhos demais para
dançar.

Atrás da igrejinha pro
testante,
eles abaixam as calças e
trepam. Garotos de
14 e quinze anos.

A. F.

22/03/2016

Iniciação



"Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!"
(Mario Quintana)


Tragam a noite espúria onde vive
o réprobo dos bichos e dos homens,
o que negou a paz dos lobisomens
ao se benzer nas águas do Estige.

Tragam corvos, chacais & prostitutas
(que hoje eu vou queimar, mas não sozinho):
não quero mais a musa, quero as putas!
não quero mais amor, quero mais vinho!

Amigos, peço, imploro, rogo, clamo:
tragam da veia mansa o teso mel,
o gozo que verteu em terra Onã,
o sangue que Caim tomou de Abel.

Vampiros, nossos filhos de amanhã.


A. F.



25/01/2016

Retrato da galinha enquanto morre


Uma galinha, que engraçada,
se derramando, e tão discreta
: sua natureza degolada
mantém algo de secreta
em sua morte desvelada.
Essa galinha é poeta.

Mas a galinha na calçada,
em sua forma de morrer,
parece não saber de nada
do que é ser ou é não ser.
Pobre galinha degolada,
sabe morrer sem nem saber.

Pobre galinha, degolada
bem antes mesmo de nascer.
Nesse cenário (a calçada),
toda encolhida (que engraçada),
achou sua forma de morrer.
Essa galinha é tudo ou nada.

E morre, e morre pra valer,
essa galinha, que engraçada.
O sangue jorra sem saber
o que é carne o que é calçada
nessa paisagem degolada,
nesse cenário que é morrer.

A. F.